"On lit comme on aime, on entre en lecture comme on tombe amoureux : par espérance, par impatience. [...] trouver le sommeil dans un seul corps, toucher au silence dans une seule phrase."In Une petite robe de fête
Christian Bobin
Cesariny 1923-2006
"A voz do Céu, que eu, João, tinha ouvido, falou-me novamente, dizendo: «Vai buscar o livro aberto da mão do Anjo que está de pé sobre o mar e sobre a terra». Fui ter com o Anjo e pedi-lhe que me desse o pequeno livro. Ele disse-me: «Toma-o e come-o: no estômago, ele será amargo, mas na boca, ele será doce como o mel». Tomei o pequeno livro da mão do Anjo e comi-o: na minha boca era doce como o mel; mas depois de o engolir, amargou-me no estômago. Então disseram-me: «Tens de profetizar novamente contra muitos povos, nações, línguas e reis»."
Para responder a muitos pedidos, cá vai uma menção ao Camilo, ao universo do escritor. Agora que estou tão perto dos seus livros, da sua casa, do seu quintal...
O Projecto BooK Cell, de Matej Krén, está instalado no átrio do Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão. O artista empilha milhares de livros numa estrutura arquitectónica em que somos convidados a entrar. É construído a partir de livros editados pela Fundação Gulbenkian ao longo de 50 anos, a memória e o saber acumulados nos livros reunidos, fechados e inacessíveis, diversos e preciosos serão potencialmente recuperados no final, quando todos puderem regressar à sua função de ser lidos.
Nas Conferências do Cenáculo, que hoje terminam, em Évora, gostei imenso de ouvir falar, o Drº João Ruas, sobre a Biblioteca de D. Manuel II. Já a conhecia, do célebre Catálogo que o próprio rei escreveu, investigou e elaborou com a secretária-bibliotecária inglesa, durante o exílio em Londres. São 3 volumes (o último publicado já depois da sua morte, em 1932). É uma obra de referência essencial sobre a tipografia portuguesa do século XV e XVI.
O Fundo azul da Biblioteca Pública de Évora, o espólio bibliográfico de Frei D. Manuel do Cenáculo, a biblioteca de D. Manuel II do Palácio de Vila Viçosa, os Manifestos de Carvalho Travassos e as Miscelâneas de Vasco de Carvalho, da Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco, os documentos fabulosos e magníficos que existem nas nossas bibliotecas são para serem conhecidos e estudados.
O céu sobre Berlim, as asas do desejo. Hoje senti-me dentro deste filme, de Wim Wenders, com os anjos, na célebre Staatsbibliothek zu Berlin. Já o vi, pelos menos, há 18 anos e fui-o revendo ao longo ds vida. Agora sou eu mesma que estou dentro da biblioteca, a passear nas magníficas salas de leitura, a encontrar-me com a memória, com Homero, com os leitores, com a Palavra. Os anjos do filme não podem intervir nos acontecimentos do mundo. Há um que se deixa cair, na Potsdamer Strasse. Desejaria que as minhas asas permanecessem no interior da biblioteca.
Sem Deus, Sang diû, é o nome da neta do senhor Linh, uma menina-boneca do Oriente, refugiada no colo do avô, num país distante. O exilado senhor Linh não compreende a língua nem a cultura, mas faz uma amizade com um homem solitário, uma amizade eterna.
O valter hugo mãe, meu poeta e amigo, expõe na Galaria Símbolo (Rua Miguel Bombarda, Porto) o rosto naive e nítido de Gregor Samsa. A personagem fantástica da Metamorfose, do Kafka. Está tudo dito. A palavra também padece de metamorfose e a imagem é a palavra.
www.galeriasimbolo.com
A escritora Manuela Monteiro telefonou-me e ofereceu-me a verdadeira flor da alegria. As coisas que me disse, neste momento difícil da minha vida, foram as essenciais. Amanhã não estarei presente, na Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco, no lançamento do livro, mas estaremos sempre juntas neste projecto, em construção, de um mundo melhor através da leitura das histórias que estão nos livros.
"O dragão, indeciso, coçou com as suas fortes garras a cabeça coberta de escamas e, mais brando, disse:
- É bonito isso da Amizade! Olha, poderás subir ao pico mais alto das Montanhas para colheres a Flor da Alegria, mas terás de vencer três provas muito difíceis para mostrares que és mesmo amigo da Rosalinda. É que a Amizade não é coisa fácil, sabes?"
in A Flor da Alegria de Manuela Monteiro, Campo das Letras, 2006


O que se ganha quando a vida nos deita a perder?
que os nossos medos são as nossas coragens.
que as nossas tristezas são a maior fonte de alegria.
Tenho a experiência de cair e tropeçar e tenho sempre a graça, que me é oferecida, de não desistir, e de cultivar o firme propósito de ser apenas pessimista sobre o pessimismo.
As portas do castelo da felicidade abrem para fora (S.Francisco de Sales).
e vivam as bibliotecas. Voltei.

"Venho de dentro, abriu-se a porta :
nem todas as horas do dia e da noite
a poente e pelo meio as ilhas."
Luiza Neto Jorge