segunda-feira, 13 de novembro de 2006

no cenáculo, em Évora

O Fundo azul da Biblioteca Pública de Évora, o espólio bibliográfico de Frei D. Manuel do Cenáculo, a biblioteca de D. Manuel II do Palácio de Vila Viçosa, os Manifestos de Carvalho Travassos e as Miscelâneas de Vasco de Carvalho, da Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco, os documentos fabulosos e magníficos que existem nas nossas bibliotecas são para serem conhecidos e estudados.
Os bibliotecários e investigadores têm realizado exposições, conferências e lutado por uma melhor divulgação destes documentos.
As III Conferências do Cenáculo em Évora, no dia 14 e 15 de Novembro, são mais um esforço de dar a conhecer o nosso património cultural bibliográfico.
Vivam as bibliotecas vivas.

Programa das III Conferências do Cenáculo


quinta-feira, 9 de novembro de 2006

as asas do desejo

O céu sobre Berlim, as asas do desejo. Hoje senti-me dentro deste filme, de Wim Wenders, com os anjos, na célebre Staatsbibliothek zu Berlin. Já o vi, pelos menos, há 18 anos e fui-o revendo ao longo ds vida. Agora sou eu mesma que estou dentro da biblioteca, a passear nas magníficas salas de leitura, a encontrar-me com a memória, com Homero, com os leitores, com a Palavra. Os anjos do filme não podem intervir nos acontecimentos do mundo. Há um que se deixa cair, na Potsdamer Strasse. Desejaria que as minhas asas permanecessem no interior da biblioteca.
Vivam as bibliotecas vivas.

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

sem Deus, sang diû

Sem Deus, Sang diû, é o nome da neta do senhor Linh, uma menina-boneca do Oriente, refugiada no colo do avô, num país distante. O exilado senhor Linh não compreende a língua nem a cultura, mas faz uma amizade com um homem solitário, uma amizade eterna.
Este livro, que terminei de ler já alguns dias, é uma fábula sobre a solidariedade, o saber dar atenção, o "dar o tempo todo" a alguém, em silêncio e com pequenos gestos. É uma fábula sobre a humanidade.
O livro é do francês Philippe Claudel.


helena laranjeiro

O texto do posting anterior é de autoria da minha amiga bibliotecária Helena Laranjeiro. Agora que o tempo é todo dela escreve pequenas histórias verdadeiras, pedras preciosas no nosso dia-a-dia. Deliciem-se.
Vivam as bibliotecárias.

um pouco do meu tempo todo


fotografia de Helena Laranjeiro
Eu seguia rente às casas pelo passeio estreito, rasando os peitoris das janelas postas sobre a rua. Numa delas, um rosto sulcado pelos anos, mas a que a idade não retirara vida, oferecia-se, sereno, a quem passava, enquanto o canário, na gaiola ao lado, desfrutava a visão do que não tinha no espaço a que se via confinado.
A manhã ia a caminho do meio sob um sol de Primavera que pousava mansamente nas fachadas e o meu dia enchia-se de pequenos nadas. Foi quando decidi parar e dar-lhe um pouco do meu tempo todo para preencher o todo tempo dela e, daí a nada, já me abria a porta, depois de recolhido o canário e fechada a acessibilidade da janela.
No pátio apontou com carinho os canteiros e os muros atapetados com centenas de conchas pela mão paciente do marido e destacou o nicho com a imagem da Senhora de Fátima que mantinha acesa a fé com que ele o havia construído.
Lamentou o gato de barro com as pernas partidas à entrada da cozinha e ergueu a tampa do tacho que sobre o fogão lhe guardava a comida.
Mostrou-me a copa com uma pequena mesa onde seria posto um único prato e levou-me, orgulhosa, à sala de jantar enfeitada com as rendas do seu crochetar.
Na salinha o televisor conversava com o canário e no quarto que fora do casal havia recordações por todo o lado: a ausência das bonecas cuja lembrança não quis guardar e a presença dos peluches que ainda sentia gosto em conservar. Mas mais que tudo a sua fotografia quando rapariga e a do marido antes da partida.
Chamava-se Francisca, tinha 85 anos e, desde que ficara só da noite para o dia, ia gerindo a saudade e a solidão como sabia. A lida da casa era toda sua, com pequenas costuras pelo meio, tudo ao som bem alto do televisor que lhe dava a ilusão de um companheiro. As tardes, essas, eram para o sol da Avenida onde achava casuais conversas e assegurava às pombas a comida.
Perdera a esperança do calor de um gato, ficando-se pela companhia de um canário, mas do fundo do peito saía-lhe ainda o gemido de um cântico que nunca esquecera e falava do amor por ela guardado para os filhos que nunca tivera.
Quando me reconduziu à porta, trazia sorrisos a passear nos caminhos do rosto e as suas mãos, apertando as minhas, faziam-se demorar, como se receasse quebrar os nós do frágil laço acabado de atar.
A ela não disse nada, não fosse desiludi-la com o meu falhar, mas a mim mesma prometi que iria voltar.


Helena Laranjeiro
Braga, 8 de Maio de 2006

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

gregor samsa

O valter hugo mãe, meu poeta e amigo, expõe na Galaria Símbolo (Rua Miguel Bombarda, Porto) o rosto naive e nítido de Gregor Samsa. A personagem fantástica da Metamorfose, do Kafka. Está tudo dito. A palavra também padece de metamorfose e a imagem é a palavra.

www.galeriasimbolo.com

a flor da alegria

A escritora Manuela Monteiro telefonou-me e ofereceu-me a verdadeira flor da alegria. As coisas que me disse, neste momento difícil da minha vida, foram as essenciais. Amanhã não estarei presente, na Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco, no lançamento do livro, mas estaremos sempre juntas neste projecto, em construção, de um mundo melhor através da leitura das histórias que estão nos livros.


"O dragão, indeciso, coçou com as suas fortes garras a cabeça coberta de escamas e, mais brando, disse:
- É bonito isso da Amizade! Olha, poderás subir ao pico mais alto das Montanhas para colheres a Flor da Alegria, mas terás de vencer três provas muito difíceis para mostrares que és mesmo amigo da Rosalinda. É que a Amizade não é coisa fácil, sabes?"

in A Flor da Alegria de Manuela Monteiro, Campo das Letras, 2006

terça-feira, 17 de outubro de 2006

vida no trabalho

MAGNIFICAT

Ai, a vida!
Quanto mais me magoa, mais a canto.
Mais exalto este espanto
De viver.
Este absurdo humano,
Quotidiano,
Dum poeta cansado
De sofrer,
E a fazer versos como um namorado,
Sem a namorada que lhos queira ler.
Cego de luz, e sempre a olhar o sol
Num aturdido

Deslumbramento.
Cada breve momento
Recebido
Como um dom concedido
Que se não merece.
Ai, a vida! Como dói ser vivida,
E como a própria dor a quer e agradece.

Miguel Torga

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

a cidadela branca e os jardins da memória

"A cidadela branca" (existe na Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco, na cota 82-3 PAM) é um dos livros traduzidos para português de Orhan Pamuk, escritor turco, prémio nobel da Literatura de 2006.
A ler.

quinta-feira, 12 de outubro de 2006

revelações


No livro "Revelações" de Camilo Castelo Branco, encontrei o ex-libris de Américo Moreira da Silva, que rezava assim:
"o livro é um mudo que fala,
um surdo que responde,
um cego que guia,
um morto que vive."

Vivam as bibliotecas vivas.

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

estrelas propícias


Estrelas benéficas que orientam o nosso mundo. Não é de metafísica que estou a falar, mas do livro de Camilo Castelo Branco "Estrelas propícias", hoje oferecido a uma personagem estreante nas novelas camilianas. A bem de todos, espero que tenha um desfecho feliz como a verdadeira novela.
Viva a biblioteca viva.

quarta-feira, 4 de outubro de 2006

as portas do castelo da felicidade abrem para fora



O que se ganha quando a vida nos deita a perder?

que os nossos medos são as nossas coragens.

que as nossas tristezas são a maior fonte de alegria.

Tenho a experiência de cair e tropeçar e tenho sempre a graça, que me é oferecida, de não desistir, e de cultivar o firme propósito de ser apenas pessimista sobre o pessimismo.

As portas do castelo da felicidade abrem para fora (S.Francisco de Sales).

e vivam as bibliotecas. Voltei.

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

paz no mundo


Mazen Kerbag
Estamos de férias ou prester a ir. Desejamos paz no mundo. No Líbano e em Israel. Mazen Kerbag, no seu blogue Kerblog , faz-nos o diário de guerra, directamente de Beirute, no Líbano. Noites sem dormir, bombas por todo o lado. Uma guerra que mata. Porquê?

sexta-feira, 4 de agosto de 2006

arte de navegar


Conheci um grande poeta, mencionado no post anterior, que trazia vestida uma camisola com o poema "arte de navegar".

"Vê como o Verão subitamente se faz água no teu peito,
e a noite se faz barco,
e a minha mão marinheiro."

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 27 de julho de 2006

deixa-me dar-te o verão

Londres, Mariana Alvim

O verão é feito de coisas
que não precisam de nome
um passeio de automóvel pela costa
o tempo incalculável de uma presença
o sofrimento que nos faz contar
um por um todos os peixes do tanque
e abandoná-los depressa
às suas voltas escuras.

José Tolentino Mendonça
In De igual para igual

sábado, 22 de julho de 2006

vodka e livros

A comunidade de leitores da Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco vai de férias, com livros e filmes na bagagem.
Hoje, conversamos sobre o romance "Psicopata Americano" de Bret Easton Ellis. Uma história que mata muito bem e muito bem escrita, sobre uma América de extremos e excessos.
Despedimo-nos com vodka (directamente da Ucrânia) e bolo.
Terminou-se a conversa com as Cantigas de Amigo, de Amor e de escárnio e maldizer.
Analisamos as subtilezas...

quarta-feira, 19 de julho de 2006

relâmpago

Chegou hoje à biblioteca o nº18.
O mais recente número da revista Relâmpago é dedicado a Luiza Neto Jorge.
"Este é o tempo todo que me falta
e nem é muito nem pouco."
Luiza Neto Jorge
Na Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco encontramos os seus livros :
A Lume, Assírio & Alvim, Lisboa, 1989
Poesia, Assírio & Alvim, Lisboa, 2001
Poemas de Luiza Neto Jorge (CD), poesia dita por Maria Emília Correia, 1997

segunda-feira, 17 de julho de 2006

temor e tremor


Temor e tremor.
Significados para estas palavras :

1. Foi o último livro comentado e lido pela Comunidade de Leitores, na Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco. Livro, da autora Amélie Nothomb, a quem foi atribuído o Grande Prémio de Romance da Academia Francesa, em 1999. Fez sensação em todo o mundo. É uma história verdadeira. Conheço-a e presencio-a todos os dias. Amélie viveu-a no Japão, na empresa Yumimoto Corporation. Pode ocorrer em qualquer instituição pública portuguesa. A hierarquia representa tudo. Quem se cinge ao seu lugar, sobrevive, quem tenta quebrar barreiras, será arrasado. Os perversos processos de humilhação acontecem em qualquer lugar.

2. É também o título da obra filosófica de Sören Kierkegaard, que foi publicada em 1843. A perspectiva trabalhada em “Temor e Tremor” é de cunho religioso e, na dialética existencial de Sören Kierkegaard apresenta o homem ético representado pela figura bíblica de Abraão, que aos 70 anos, vê cumprir-se a promessa de Deus : "terás grande descendência". Torna-se pai na velhice. Quando recebe de Deus a orientação de que deve sacrificar o seu filho, Abraão crê e crumpre a ordem divina. Dá o salto da fé.
Kierkegaard reflecte sobre o homem que se entrega ao incompreensível, ao inimaginável, só possível pela fé. Considera o paradoxo da fé frente às questões éticas. Na fé, o indivíduo coloca-se acima do geral (o ético). O herói (ético) move-se pelos resultados e pela moral. O homem da fé move-se pela paixão.

3. Carta de S. Paulo aos Filipenses 2, 12 : “trabalhai a vossa salvação com temor e tremor”