segunda-feira, 26 de junho de 2006

é à janela dos filhos que as mulheres respiram


Picasso
Para a minha amiga Fátima, bibliotecária, que regressa à sua biblioteca, e para o seu João Afonso que está ao redor do coração.

"As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres – ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que as abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos – no pescoço das mães – ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos.

As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração."

Daniel Faria
In : Poesia

quinta-feira, 22 de junho de 2006

no México, o futebol numa biblioteca

O futebol move montanhas, dá poder, torna os homens irracionais. No Terceiro Mundo ainda é pior.
No México, no dia em que este país jogou com Portugal, passaram-se situações inauditas !
Li, num blog sul-americano, que numa biblioteca, os trabalhadores tiveram autorização dos seus superiores para ir vendo o jogo enquanto trabalhavam, mas ao mesmo tempo, um superior dos superiores fiscalizava os trabalhadores para que ninguém visse o jogo, no local de trabalho!
Só mesmo no Terceiro Mundo é que isto acontece ! E o mais engraçado é que para branquear o acontecimento, o superior - inferior acusa o bibliotecário de não ter entendido bem as ordens quanto ao “ir vendo o futebol na hora de trabalho” !
Ainda bem que sou uma bibliotecária que detesto futebol e não vivo no Terceiro Mundo!

quarta-feira, 21 de junho de 2006

o comandante

Enquanto passeava no parque, na hora de almoço, encontro um utilizador da biblioteca pelo qual nutro um carinho muito especial. Há muito tempo que não o via e sentia um aperto no coração por nada saber dele.
É o meu muito querido Comandante Bento Leite, reformado das embarcações e das viagens à volta do mundo. Utiliza a biblioteca com muita frequência e procura sempre a bibliotecária para o ajudar nas suas difíceis pesquisas bibliográficas. É um prazer e um desafio ajudá-lo. Cruzamos os nossos caminhos há muito tempo. Já lhe procurei livros e relatórios por todas as bibliotecas portuguesas, sobre os assuntos que lhe interessam e que precisa para escrever. Apaixonei-me pela pesca, pelas embarcações, pela história dos barcos, pela pesca do bacalhau, pelos portos. Já lhe ouvi as histórias mais belas passadas no mar alto, as histórias exóticas por todos os sítios onde viveu.
De todas as vezes que o vejo, peço-lhe para as escrever. Já realizamos uma gigantesca exposição, na biblioteca municipal, com parte do seu espólio bibliográfico sobre as embarcações portuguesas, juntamente com réplicas-miniatura dessas embarcações.
A sua vida é contada pelos dias que passou no mar e pelos dias que passou em terra com a sua mulher, já falecida.
O tempo começa numa terça-feira, dia em que a sua amada mulher morreu, há já doze anos. Hoje é sempre doze anos, 4 meses e 20 dias passados sem a sua eterna mulher.
Um homem do mar, sem o amor da sua mulher, vem às vezes à biblioteca. Quando deixa de vir, sou eu que conto os dias, com o coração apertado.
Vivam as bibliotecas vivas.

sexta-feira, 9 de junho de 2006

a casa de papel


Os livros mudam o destino das pessoas.
Mas nós mudamos também o destino dos livros e das bibliotecas.
Hoje lançei mais uns dados. A minha sorte será a sorte dos livros e de uma biblioteca.
Uma casa de papel. Os livros são a minha casa.
Viva uma biblioteca que quero tornar viva.
fotografia de Cláudia Neta

quinta-feira, 8 de junho de 2006

uma nova palavra

A partir de hoje, quem entrar na biblioteca encontra uma nova palavra. Uma palavra oferecida de par em par.
"Eu quero uma nova palavra
diferente das outras palavras
que cansei de repetir,
uma palavra de vento,
uma palavra que o tempo
seja capaz de ferir.
Eu quero uma nova palavra,
mistura de sol e de frio,
de barcos descendo um rio,
cheia de céu e de mar.
Eu quero uma nova palavra
aberta de par em par
como o rosto de um menino
com paisagens no ouvido
e cantigas no olhar."
João Pedro Mésseder
In "De que cor é o desejo ?"

terça-feira, 6 de junho de 2006

plano nacional de leitura


Sara Affonso
No passado dia 4, foi apresentado o Plano Nacional de Leitura, pelo Ministério da Educação e da Cultura. Vai ser mesmo uma prioridade política com investimento de milhares de euros.
O principal objectivo é incentivar a leitura entre os mais novos e criar hábitos de leitura.
No ano lectivo 2006/2007 arrancam 3 programas em todas as escolas do país :
- "Está na hora dos livros" - para crianças que não sabem ler e o objectivo é incentivar o contacto com as obras através das leituras feitas pelos educadores.(Pré-escola)
- "Está na hora da leitura" - para crianças que começam a ler. Todos os dias no 1º ciclo está previsto 1 hora/dia para a leitura com o professor na sala de aula, para além de outras actividades paralelas.
-"Quantos mais livros melhor" - destinado ao 2º ciclo, onde estão previstos 45 minutos de leitura, na sala de aula, na disciplina de Português.
As bibliotecas públicas já efectuam este trabalho já alguns anos, como diriam alguns estudiosos destas matérias, proporcionaram uma revolução "silenciosa" na área da promoção da leitura.
Vão agora ser contempladas com mais acções do Programa de Itinerâncias Culturais, do Ministério da Cultura, com 400.000 euros, para 2007 !
Vivam as bibliotecas vivas.

sábado, 3 de junho de 2006

14 portas se abrem

A biblioteca, que me acolheu e me fez crescer, retoma hoje o seu aniversário, neste novo edifício, com as características de uma biblioteca pública. Faz 14 anos que se abriram as portas e a luz entrou. Para não mais sair.
Parabéns à Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco. Viva a biblioteca viva.

quinta-feira, 1 de junho de 2006

para todos os que trabalham comigo

Às vezes, o dia resume-se a uma palavra. Hoje o dia valeu pelo nosso encontro.
Há muito tempo que não nos encontravamos, todos reunimos à volta de uma mesa, sem nos culparmos e nos atacarmos.
Hoje intensificamos o nosso tempo, juntos nesta biblioteca, nesta morada carregada de livros e sons, não nos esqueçemos que é preciso transportar o ouro e o marfim, num único navio, no verdadeiro navio de espelhos que cavalga.
Vivam todos os que trabalham na biblioteca viva.
"O navio de espelhos
não navega cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele

Os armadores não amam
a sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

O seu porão traz nada
nada leva à partida

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

(E no mastro espelhado
uma espécie de porta)

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto

Quando um se revolta
há dez mil insurrectos

(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)

E quando um deles ala
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo"

Mário Cesariny.

quarta-feira, 31 de maio de 2006

jerusalém

Num universo dominado pela loucura, “Jerusalém”, a cidade e o lugar mítico, funciona neste livro como metáfora para a construção de uma possível e prometida "terra dos homens", em que se debate o conhecimento do humano. Gonçalo M. Tavares, o autor dos livros negros, onde este se incluí, convida à reflexão e transporta para a ficção personagens de um mundo estranho, incerto e desassossegado. Personagens que deambulam num manicómio, outra personagem que escreve uma tese sobre a origem do horror, seres defeituosos, assassinato...
Acabei de ler um livro que venceu o Prémio LER/ millennium bcp no ano de 2004, e o Prémio José Saramago 2005. O vencedor do nobel, José Saramago, considera este livro como já pertencendo à grande literatura ocidental.
Está nas estantes da Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco.
Vivam as bibliotecas com livros negros bem vivos.

terça-feira, 30 de maio de 2006

sobe montanhas

O escritor Inácio Pignatelli esteve hoje com jovens leitores na biblioteca e contou-lhes as histórias "O pastor de nuvens" e o "Sobe-montanhas".
O Sobe-montanhas era uma gigante que tinha a função de guardar as montanhas do seu país, daí o seu nome, pois tinha que subir e descer as montanhas para confirmar a sua existência, para além de as contar diariamente.
A partir deste texto, o escritor passou ao diálogo com os miúdos, e defendeu que todos sejam gigantes na vida, mesmo que nos esperem vidas pacatas e tenhamos talentos menores.
O "Sobe- montanhas" é um bom texto literário, que permite, para além da leitura de uma simples história, reflectir sobre a nossa vida e o mundo.
Vivam as bibliotecas que sobem montanhas !

sexta-feira, 26 de maio de 2006

há uma árvore de gotas em todos os paraísos

O universo poético de Herberto Helder é dos meus preferidos. Se mergulhar dificilmente nado noutras águas.
No balcão de atendimento da Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco, temos o Poemário, uma oferta de leitura de um poema aos utilizadores, editado pela Assírio e Alvim. Hoje é a vez do poeta Herberto Helder, com este poema :
"Há uma árvore de gotas em todos os paraísos.
Com o rosto molhado,
eu posso ficar com o rosto molhado,
com os olhos grandes.
Neste lugar absoluto pelo sopro,
fervem as víboras de ouro aos nós
sobre as pedras enterradas. Leopardos
lambem-nos as mãos giratórias.
E eu abro a pedra para ver a água estremecendo.
A água embebeda-me.
Como nos corredores de uma casa brilha o ar,
brilha como entre os dedos.
- A minha vida é incalculável."
In : Ou o poema contínuo.
Vivam as bibliotecas vivas.

canon in D

Johann Pachelbel, músico e compositor (1653-1706), escreveu Canon in D (em Ré Maior), que é a peça barroca mais interpretada até aos dias de hoje, por diversos músicos e orquestras, e tornou-se num tema de um filme, e recentemente música de fundo da publicidade à Coca-Cola.
O Canon in D é originalmente uma peça musical de repetições feita para 3 violinos e um violoncelo contínuo, o tema vai sendo repetido individualmente pelos 3 violinos, e o resultado é ouvirmos melodias harmonicamente sobrepostas.
Os jovens músicos, da Gulbenkian de Braga, imprimiram a partitura da net, fascinados pelo anúncio já citado. Parece-me que preferem o fundo musical à bebida!
A Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco tem o CD nº196 "Pachelbel´s Canon", pela English String Orchestra, que pode ser escutado aqui ou emprestado para se ouvir em nossas casas.
Como sou uma felizarda, já hoje o ouvi, na redução para piano, logo pelas 8h00, tocado pela jovem pianista Mariana, em minha casa.
Vivam as bibliotecas vivas.

quinta-feira, 25 de maio de 2006

ilhas da morabeza

Os escritores de Cabo Verde, da terra crioula, surgiram na biblioteca. Saíram das estantes da ilha-mãe Santiago e deleitaram-se pelas ilhas com nomes de santos e nomes poéticos : sal, fogo, brava, tartarugas, maio, boa vista, S. Vicente, S. Antão, S. Nicolau e S. Luzia.
A literatura africana de expressão portuguesa é muito querida nesta biblioteca que tem um bom catálogo com os escritores mais representativos destas ilhas : Germano de Almeida, José Evaristo d´Almeida, Manuel Lopes, Luís Romano, Manuel Ferreira, Teixeira de Sousa, Orlanda Amarilis e Baltazar Lopes.
Boas leituras.

terça-feira, 23 de maio de 2006

árvore livreira

Uma árvore igual e diferente de tantas outras, só que é regada com letras, as folhas têm palavras escritas e os frutos são livros.
Dois “jardineiros”, gostam de ler histórias à sombra da árvore, colhem um livro, cheiram-no e lêem-no.
Um dia a árvore dá um bom livro maduro para ler “O Romance da Raposa” de Aquilino Ribeiro, os contadores de histórias lêem um capítulo do romance muito divertido.
A Salta-pocinhas, raposa matreira, esteve na nossa biblioteca !

sexta-feira, 19 de maio de 2006

eupeu apamopo tepe

Eupeu apamopo tepe. Amo-te.
Foi um recital de poesia sensorial, na biblioteca, com casa cheia e onde o amor foi gritante. O amor é a verdade. O Paulo e a Anabela não querem adiar o amor para o outro sépécupulopo e disseram-nos que o amor está onde estiver está dentro de um girassol de uma oração um berço uma caixa de costura um intestino um pulmão.
Viva a poesia nas bibliotecas vivas.

quarta-feira, 17 de maio de 2006

trabalho vivo, com a Cristina

Recordo o encontro de Rilke com Rodin, já falado aqui no 21 de Abril. O jovem poeta foi visitar o escultor, não para lhe perguntar pela sua arte, mas para lhe colocar a questão decisiva : "Como se deve viver?"
Rodin respondeu-lhe : "Trabalhando".
Esta palavra iluminou Rilke e anos mais tarde afirmou que "trabalhar é viver sem morrer".
Hoje lembro-me muito da Cristina, com quem trabalho há muitos anos, e a quem desejo muitos tempos em comum de trabalho, mas trabalho verdadeiramente vivo.

segunda-feira, 15 de maio de 2006

o fogo

Convocam-se as fadas verdes, o Noddy, os gnomos da floresta, os dinossauros e o cotãozinho para a festa de anos do jotinha.
O menino que apagou o "fogo" com a mãe.
Parabéns ao meu mais doce menino.

sexta-feira, 12 de maio de 2006

acontece na rede

O culminar do trabalho do "Acontece na Rede" (rede de bibliotecas escolares e biblioteca municipal) realizou-se hoje, sob o tema "20 anos de Integração de Portugal na União Europeia", com uma conferência, teatro e exposição. A conferência do Prof. Doutor José Palmeira foi de tantas estrelas como as dos estados membros.
Aprendemos todos.
Oxalá Portugal explore melhor a ideia, defendida pelo conferencista, acerca de que Portugal tem um espaço aéreo estratégico e tem um mar potencial a ser utilizado por centrais de energia.
Vivam as bibliotecas do espaço da união.

quinta-feira, 11 de maio de 2006

silka, sebastião, o meu avô e o guardador de nuvens

Manuela Bacelar, "Sebastião"

Manuela Bacelar, envolta da sua mágica Praga, com os dedos ainda repletos de brilhantes, chegou a Famalicão, terra das suas origens, e veio à biblioteca municipal. Uma exposição com as ilustrações da famosa "Silka" de Ilse Losa, portadoras do Prémio Maçã de Ouro da Bienal Internacional de Bratislava, "O meu avô", "Sebastião" e o "Guardador de Nuvens" de Inácio Pignatelli, são algumas que podemos saborear.

quarta-feira, 10 de maio de 2006

couves & alforrecas

valter hugo mãe enviou-me este email. Isto passa-se em Portugal, depois do 25 de Abril de 1974.
"PROVIDÊNCIA CAUTELAR
MARGARIDA REBELO PINTO / OFICINA DO LIVRO

VS

JOÃO PEDRO GEORGE / OBJECTO CARDÍACO

Na passada Terça-feira, dia 2 de Maio, realizou-se a audiência das testemunhas arroladas pelos requentes e requeridos neste procedimento judicial.
Por parte dos requerentes (MRP/OL), foram ouvidos os Senhores Gonçalo Saraiva (amigo e leitor de MRP), Renato Carrasquinho (colaborador do site oficial de MRP) e Marcelo Teixeira (editor da OL); por parte dos requeridos foram ouvidos Maria do Rosário Pedreira (editora e escritora), Eduardo Pitta (escritor e crítico literário) e Rui Tavares (professor, escritor e ensaísta). Os requeridos prescindiram ainda da audição de duas outras testemunhas, por uma questão de economia processual, que seriam David Justino (ex-Ministro da Educação e Professor) e Manuel Alberto Valente (editor das Edições Asa).

É nossa convicção de que, após a devida audiência das testemunhas, ainda mais notória se revelou a ausência de qualquer tipo de agressão a direitos legalmente constituídos por terceiros pela a publicação da obra «Couves & Alforrecas, Os Segredos da Escrita de Margarida Rebelo Pinto».
Sustentando a sua posição na eminência de se violarem três tipos de direitos, os requerentes interpuseram a famosa providência cautelar, no entanto, de modo profundo, verificou-se, em nosso entender, que tais violações não ocorrerem. Assim,

1.º possibilidade de se agredirem os Direitos de Personalidade da autora MRP:
é notório que o livro de JPG não ultrapassa o universo literário, sendo que todo o seu contexto se limita estritamente à avaliação da obra da autora estudada. Não existem referências de carácter pessoal, sendo inegável que o estudo de JPG se dirige a uma perspectivação determinada da obra sobre que se debruçou.

2.º possibilidade de se agredirem os Direitos de Autor da autora MRP:
os requerentes terão pretendido dar como insustentáveis as citações que JPG faz da obra da autora estudada. No entanto, as citações estão expressamente tipificadas na lei – isto é, estão previstas e expressamente autorizadas pelo legislador nacional –, e só se tornam efectivamente excessivas quando, pela quantidade, comportam substancialmente a obra original citada. Ou seja, seria necessário que as citações de JPG ultrapassassem um limite tal que – em relação a qualquer dos 8 livros sobre que incide «Couves & Alforrecas, Os Segredos da Escrita de Margarida Rebelo Pinto» – reproduzissem substancialmente a obra estudada.

3.º possibilidade de se agredirem os Direitos de Propriedade Industrial de MRP:
sendo que o nome da autora é também uma marca registada, pretenderam os requerentes ver na sua citação por parte de JPG uma utilização indevida. Pretensão esta que não colhe uma vez que o direito à marca apenas se agride quando o produto que se lhe opõe passa por um original. Ou seja, o livro de JPG estaria em falta se quisesse passar por um original da autora sobre que incide. De facto, não há no livro de JPG qualquer possibilidade de se confundir com um romance ou um conjunto de crónicas de MRP, o livro assinala manifestamente a autoria de JPG, não pretendendo nunca confundir o leitor sobre o assunto de que trata, sobre quem é o seu autor e sobre quem é autor estudado.
O impedimento da utilização de um nome registado seria insustentável. Para o podermos entender consideremos os exemplos destes livros: «Coca-Cola Killer», do maestro António Vitorino D’Almeida (Edições Prefácio); «Mama, Coca, Coca-Cola, Cocaína: Três Pessoas numa Droga Só, Notas para um Ensaio Sobre a Eco-Nomia Política do Narcotráfico» de René Tapia Ormazabal (Editorial Caminho); e «Quando A Coca-Cola fez Trezentos Anos – Porno-Ficção Sem Crianças nem Animais» de Rui Filipe Torres (Edições Dolly).
Uma marca registada não impede nunca o estudo sobre si, impede apenas a criação de um produto que se queira fazer passar pelo legítimo detentor da marca em causa.

Perante tais evidências, a providência cautelar interposta contra JPG/OC foi, em nosso entendimento, um acto precipitado prevendo a ocorrência de violações que simplesmente nunca estiveram para acontecer.
Na verdade, a queixa dos requerentes ia no sentido de acusarem «Couves & Alforrecas, Os Segredos da Escrita de Margarida Rebelo Pinto» de provocarem uma quebra nas vendas dos livros da autora MRP e, conforme declarado por Marcelo Teixeira em tribunal, as vendas da autora estão a correr de modo excelente, sendo que, em menos de um mês, o livro «Diário da tua ausência» vendeu 20.000 (vinte mil) exemplares estando para qualquer momento a chegada da tipografia de uma nova tiragem de mais 10.000 (dez mil) exemplares.

Também é um facto que o livro «Couves & Alforrecas, Os Segredos da Escrita de Margarida Rebelo Pinto» terá vendido mais do que os 1.000 (mil) exemplares da sua tiragem inicialmente prevista; deve-se isto exclusivamente à publicidade que a interposição da providência cautelar provocou. Até ao momento, foram entregues à Sodilivros (distribuidora da OC) cerca de 3.000 (três mil) exemplares do livro de JPG.
A providência cautelar que MRP/OL interpuseram é o primeiro acto judicial desde o vinte e cinco de Abril de 1974 que tenta impedir a publicação e venda de um livro de crítica literária.

É nossa convicção de que a obra da autora MRP, e sobretudo o seu impacto no público, tem que ver com um fenómeno social. Não é a qualidade literária inerente ao que escreve que justifica o fenómeno de vendas, é antes um processo atinente à sociologia, como se verifica pelo envolvimento largamente promotor com a imprensa genericamente chamada de cor-de-rosa. De facto, poucos serão os autores que, como MRP, aparecerão no modo e quantidade com que esta aparece naquele tipo de imprensa. Pensando melhor, em Portugal nenhum outro autor aparece, no mesmo modo e com a mesma insistência, naquele tipo de imprensa de massificada distribuição. Sendo que a sua obra raramente merece atenção por parte da crítica e publicações especializadas; coisa que desgostou a autora MRP, levando-a a afirmar em várias entrevistas que gostaria de ver algum crítico propriamente dito a versar sobre a sua obra."